Urbanismo
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Quando um prédio de luxo ameaça ruir em Belém, como aconteceu na semana passada com o Wing, não só as irregularidades da construção ficam expostas. Também aparecem fatos obscuros da vida na cidade e da relação entre o poder público e os interesses particulares.
Em agosto de 1987 um prédio de 13 andares, o Raimundo Farias, desabou em Belém, a quatro meses de ser entregue aos compradores. Era o final da tarde de uma quinta-feira. Os operários se preparavam para deixar a obra quando foram surpreendidos pelo estrondo, seguido da ruína da construção. Poucos conseguiram escapar; 39 trabalhadores morreram soterrados. O prédio arriou por inteiro, como se tivesse sofrido uma implosão.
Mesmo à simples observação visual, muitos defeitos de construção se tornaram evidentes. Mas quem chegou ao local logo depois do acidente observou que três dos 13 andares estavam enterrados abaixo do nível do solo. No monte de concreto, tijolo e ferro retorcido, o que mais se destacava era o pó.
Cimento, pedra e barro viraram poeira. Sem suportar o peso excessivo (havia paredes de alvenaria com mais de 25 centímetros de espessura, para nivelar estruturas tortas ou com fissuras, e sacadas acrescidas ao projeto original sem novo cálculo estrutural), os três primeiros andares simplesmente afundaram no solo pantanoso da Doca de Souza Franco.
À custa de muito aterro e de fundações profundas, aquele antigo igarapé virou um dos pontos mais cobiçados e caros da capital paraense. Prédios cada vez mais altos e ousados foram se multiplicando, inclusive as duas maiores torres do Norte e Nordeste, com 40 andares. Sua construtora conseguiu vencer as dificuldades enfrentadas pela dimensão dos prédios e sua localização, mas consumiu sua saúde financeira na empreitada. Hoje está à margem do mercado.
Bem perto dali, na tarde de um sábado de janeiro deste ano outro prédio veio abaixo, em condições assemelhadas às do Raimundo Farias. O Real Class tinha 35 andares. A pouco mais de um quilômetro, estava em terreno alto e sólido (embora muito estreito) para o padrão da geologia de Belém. Não devia ter os problemas de fundação da malsinada edificação que ruíra quase um quarto de século antes. Mas, segundo o laudo da perícia, quem o projetou deixou de considerar a ação dos ventos sobre a delgada e elevada estrutura.
Quando o Real Class veio abaixo, de uma só vez, sem os avisos costumeiros nas edificações com problemas, já não encontrou mais os operários, exceto dois, que haviam encerrado o expediente ou não foram trabalhar. Só matou mais uma vizinha. Nem atingiu transeuntes. porque chovia muito forte e o tráfego pela travessa 3 de Maio era reduzido.
Foi um milagre não haver muitos mortos, constataram os que primeiro chegaram ao local. Novamente puderam perceber, nos restos do imponente prédio, que se avolumavam com a altura de um prédio de sete andares, o mesmo traço marcante nos escombros do Raimundo Farias: cimento e concreto transformados em pó, certamente pela má qualidade do produto ou por dosagem inadequada na mistura. E ferros que espantavam por sua singeleza. Nada parecido ao que se supunha necessário para sustentar todo aquele peso.
Nove meses depois do abalo do Real Class, sem contundência suficiente para afastar as dúvidas e suspeitas sobre as causas do acidente e seus responsáveis, todos ainda impunes, Belém sofreu outro susto. No mesmo bairro valorizado do Umarizal, principal alvo do desordenado e assustador crescimento vertical da cidade, um prédio com 28 andares foi interditado por ameaça de desabamento. O Wing é de responsabilidade de outra construtora, a Porte Engenharia. O calculista, Raimundo Lobato da Silva, porém, é o mesmo do Real Class e de numerosos outros “arranha-céus”.
As medidas tomadas foram de causar impacto: além dos moradores do Wing, também foram evacuados os do prédio vizinho, o La Vie en Rose, bem menor, e de mais seis casas que estariam na área de alcance (uma sétima não estava ocupada). O quarteirão da rua Diogo Moia foi fechado ao trânsito, liberada seis dias depois pela manhã e novamente interditado, por decisão judicial, algumas horas em seguida, voltando a ficar isolado.
Na sua única manifestação oficial sobre o episódio, em um comunicado divulgado através da imprensa, a Porte Engenharia não disse o que aconteceu. Limitou-se a enfatizar o que não houve: “Após rigorosos testes e inspeções, identificamos perfeitamente as causas do problema, que, afirmamos enfaticamente, não têm nenhuma relação com o cálculo e dimensionamento da estrutura do prédio, estando estes absolutamente corretos”.
As informações prestadas pela construtora seriam de que um único pilar da garagem foi esmagado, por não suportar a carga que lhe cabia sustentar. Além das garagens, a estrutura mantinha a piscina e a área de lazer. Escorado o pilar e feitas as obras necessárias, tudo podia voltar ao normal. Mas essa mensagem não encontrou eco algum. A incredulidade em relação às garantias da empresa persistia.
Embora a garagem constitua uma estrutura autônoma do prédio residencial, com os 28 apartamentos considerados de luxo (um por andar), há ligação entre elas. Se outros pilares não resistirem, esse desequilíbrio poderia afetar a estrutura maior. Ainda mais porque se o problema resultar de qualidade de material e deficiência na execução, o mesmo que aconteceu na área das garagens poderá se repetir no setor de moradias.
A antecipação da liberação, sustada por ordem judicial, foi uma providência apressada e temerária. O laudo pericial deveria estar concluído nesta quarta-feira (escrevo na segunda), semana e meia depois do estalo e esmagamento do pilar. Mas é um laudo encomendado e pago pela construtora. Mesmo que realizado por professores da Universidade Federal do Pará, jamais poderia ser considerado suficiente para afastar os riscos resultantes do acidente.
No caso do Raimundo Farias, houve, de fato, avaliação independente, feita pelo Coppe da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Tanto no desabamento do Real Class quanto no episódio atual não houve esse arbitramento externo, necessário não por uma questão de maior ou menor perícia, mas para prevenir subjetividades e interferências corporativas. Técnicos de fora estão muito menos sujeitos a essas condicionantes quase inevitáveis entre a gente da terra.
Os moradores do Wing foram pródigos em declarações sobre a má qualidade dos imóveis que compraram, apesar de serem dos metros quadrados mais caros do país (sete mil reais) para esse tipo de construção. O acabamento é tão deficiente, como tem sido constatado em construções semelhantes, que a Porte Engenharia admitiu, em dezembro do ano passado, ter que reparar 62 irregularidades apontadas em perícia. Mas não cumpriu o compromisso. Mesmo na fase de construção, os vizinhos reclamavam dos procedimentos da empresa.
Para justificar os altos preços dos imóveis, as construtoras têm recorrido a ardis e artifícios, além de fraudarem os clientes no uso do material de acabamento, quase sempre inferior. Como a legislação permite, as maquetes e simulações dos seus lançamentos não guardam similitude com o produto que entregam aos compradores. Acomodados, muitos preferem investir do próprio bolso para ter uma residência compatível com o que imaginavam ser um prédio de alto luxo, com tantas áreas de uso comum (retiradas do núcleo da moradia, com suítes em tamanho às vezes ultrajante).
A grande quantidade de prédios cada vez mais altos, maiores e sofisticados leva a uma pergunta que se generaliza na cidade: quem dispõe de dinheiro suficiente para fazer esses investimentos? Cada apartamento no Wing tem sido avaliado em torno de um milhão de reais. Na planta, era possível comprá-lo por menos da metade desse valor. O preço, antes do acidente, passara da marca do milhão. Logo, quem fez a aquisição antes de começar a construção pode alcançar um excelente lucro (que foi para o espaço agora, com o acidente).
Sabe-se que um grupo restrito de pessoas forma o circuito dos costumeiros adquirentes de apartamentos vendidos na planta. São empresários, profissionais liberais e, cada vez mais, funcionários públicos. Originalmente categorias distintas, têm se confundido ou fundido em tempos mais recentes.
O engenheiro proprietário da Porte Engenharia, por exemplo, Ernani Antônio Guilhon da Silva, foi apontado pelo Sindicato dos Urbanitários como funcionário da antiga estatal Celpa (hoje sob o controle do grupo privado Rede), afastado desde 2005 para tratamento de saúde. Embora tenha 25 anos de existência, a Porte só começou no ramo da incorporação imobiliária há 11 anos, nos quais construiu sete grandes prédios, mais três em lançamento, e outros cinco de menor porte.
No Wing moram dois filhos do governador Simão Jatene, sua ex-esposa e sua sogra. Os filhos são profissionais liberais que combinam cargos públicos com negócios privados, numa teia de relações que vai se expandindo, como tem acontecido com boa parte da elite da cidade que tem um pé na administração pública e outro nos negócios privados. Essa relação pode explicar a capacidade de investimento multiplicada.
Mas quando o negócio extrapola, é impossível não pensar na promiscuidade de interesses. E na conclusão comum: de que o poder público é a principal fonte do circuito de dinheiro (às vezes pesado) que gira pela cidade, em negócios explícitos ou invisíveis. Todos eles sujeitos a vir à luz do dia quando um imprevisto acontece.
Será que mais um estouro desses templos da riqueza e do consumo em forma de aço e cimento não vai atrair a atenção de quem devia cuidar desses acidentes?
LFP @ novembro 1, 2011
Energia
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Quatro líderes indígenas do vale do Xingu, comandados por Paulinho Kayapó, levaram um ano para preparar, quase sigilosamente, o I Encontro dos Povos Indígenas de Altamira, realizado em fevereiro de 1989. A Eletronorte compareceu desprevenida. Estava certa de que, com seu poderio, de maior subsidiária do grupo Eletrobrás, convenceria todos a aceitarem as cinco barragens que pretendia construir no rio, no Pará, planos que anunciara alguns anos antes. Seriam das maiores e mais baratas hidrelétricas que se podia pretender em qualquer parte do mundo. Mas acabou saindo escorraçada. E os projetos, arquivados.
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LFP @ novembro 1, 2011